Consumidos e consumados
Um dedo e quatro noções
O relato de umas férias inesquecíveis
Nessas férias conheci coisas totalmente novas. Como minha capacidade de improvisar, reinventar e redescobrir. Conto tudo. Tinha planejado uma viagem com os meninos. Iríamos para Paris, alugar um apartamento. Estávamos realmente empolgados com a ideia da convivência em outra língua, levando uma vida de local, fazendo pequenos trajetos de trem para conhecer outras cidades e países. Estava tão empolgada e eufórica que acabei levando um tombo em casa, dias antes de viajar e… quebrei o dedo.
A coisa aparentemente boba acabou me deixando insegura de viajar sozinha. E foi então que tive a primeira grande descoberta das férias. Não temos o menor controle sobre nada na vida. De uma hora para a outra, uma afobação na escada acaba com toda a sua ideia de vida perfeita. Claro, porque a vida não é perfeita.
Isso dito desta maneira tem ares de grande obviedade, mas diante do olhar do eterno aprendiz é algo realmente novo e interessante. Como um país a que nunca fomos, uma língua que ainda não aprendemos, algo valioso mesmo para a vida.
Bem, diante do inevitável tombo, repensei nossas férias do jeito improvisado que deu. Aproveitei para fazer um monte de coisas que pesam sobre nós o ano inteiro, porque nunca temos tempo para elas.
Falo de armários, documentos, papeladas, projetos que nunca saem da agenda. Passei todos a limpo em uma semana. O que me rendeu a segunda boa descoberta. FÉRIAS É TER TEMPO. PARA QUE VOCÊ NÃO FIQUE SEM TEMPO DE NADA DEPOIS. ÓBVIO DE NOVO, MAS OS MENINOS NÃO CONCORDARAM. PRA ELES, FÉRIAS SÃO PASSEIOS, AR LIVRE, ENTÃO… ROLOU A TERCEIRA DESCOBERTA: TIVE DE DAR FÉRIAS PARA A MINHA TENDÊNCIA CONTROLADORA E DEIXAR MEU FILHO GRANDE (OHHH) PASSAR UNS DIAS NA PRAIA COM A FAMÍLIA DE UM GRANDE AMIGO. Doeu. Você talvez se lembre do que eu escrevi a respeito disso faz uns meses. Pois é. Nessas férias nos reinventamos à força.
E, então, aconteceu a quarta maravilhosa descoberta. Já que o grande estava na praia, resolvemos levar o pequeno para o Rio.
Era um final de semana estranho e eu, além de uma tala na mão, tinha uma ideia fixa na cabeça. Não conseguia parar de pensar no crime horroroso contra a ex-namorada daquele goleiro. Estava num momento sem muita fé na Humanidade. O tempo no Rio estava lindo. Fomos para a praia. E, quando me dei conta, havia perdido meu filho na beira da praia. Você já pensou em como reagiria numa situação dessas? Eu conto como reagi: fiquei histérica. Comecei a gritar como uma louca. Todos os pensamentos mais horríveis do mundo me invadiram. Todos em minha volta pareciam hostis, sequestradores de criança, pedófilos, maníacos em alto grau. Tudo deve ter durado uns 10 minutos ou 10 anos.
Quando consegui me dar conta do que estava acontecendo fora da minha mente assustada, vi uma praia inteira reagindo, buscando, como eu, “o filho pequeno daquela mulher.” Tive tempo de notar que não eram pessoas cruéis, assustadoras; eram mães, pais, irmãos, primos, como eu. Todos também apavorados com a ideia de que uma criança pudesse sumir dessa maneira. Então, comecei a ouvir um eco vindo de longe: acharam, acharam, acharam… e lá estava ele, meu pequeno, trazido pelas mãos de um estranho maravilhoso.
Um estranho que foi de barraca em barraca perguntando quem o tinha visto, enquanto eu surtava. Sou grata a esse homem para o resto de minha vida. E não só a ele, mas também a todas as pessoas que aplaudiam o reencontro enquanto eu chorava que nem um bebê.
Um dedo quebrado me rendeu férias inesquecíveis. A vida é boa. As pessoas, na sua grande maioria, são do bem. Não existe nada que não possa ser reinventado. Ter tempo e se permitir aprender é tudo.