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Luiza Olivetto

Luiza olivetto, mãe de Homero, é arte-educadora, artista plástica, cenógrafa, figurinista, designer, astróloga e colabora com a revista Pais e Filhos desde 2003

Criadores e criaturas

Viva a diferença!

Educação boa é educação divergente, aquela que estimula respostas espontâneas

Quando me formei em Arte-Educação, aprendi com a educadora Ana Mae Barbosa tudo o que me guiou até hoje, nessa área e na vida.

Meu olhar para a criança e para o ser humano está, desde então, contaminado pela urgência de respeitar as individualidades e ajudar a tirar da criança a sua potencialidade e o seu talento único: aquele que caracteriza e se confunde com a identidade de cada um. Exercer esse talento faz a diferença entre ser feliz no exercício do seu dia a dia e o tédio das horas que não passam.

Todos os bons arte-educadores sabem: a escola de hoje é a de 200 anos atrás. Não prioriza o indivíduo e suas características únicas. Não trabalha seus talentos; ao contrário, quer padronizar, nivelar na média.

Ana nos ensina que educação boa é educação divergente. E as escolas, de uma maneira geral, praticam a educação convergente.

O que quer dizer isso?

Quando você está educando alguém e requer que esse alguém responda exatamente aquilo que lhe foi ensinado, trata-se de educação convergente: tanto o que ensina quanto o que aprende convergem para o mesmo ponto.

Na educação divergente, o que importa é a resposta ao estímulo do educador. A interação vai gerar pontos de vista diferentes para a mesma situação.

NA EDUCAÇÃO DIVERGENTE, O IMPORTANTE É A MULTIPLICAÇÃO DE OPINIÕES, A EXPANSÃO DAS CONTRADIÇÕES, PORQUE AQUI NÃO HÁ EDUCADOR E EDUCANDO, MAS INDIVÍDUOS QUE SE EXPRESSAM E VEEM ATRAVÉS DA DIFERENÇA.

O que se vê na diferença é o que enriquece o universo. Respostas divergentes aumentam a compreensão do mundo, e quem é estimulado a responder em direções contrárias às que foram propostas é quem faz a diferença.

Educar é, na origem da palavra, trazer pra fora.

Nossas crianças têm de ser ajudadas nessa revelação de si mesmas, no auto-conhecimento, na construção de seus universos cognitivos, para que possam contribuir no mundo com originalidade. O que significa novas soluções para problemas eternos.

Somos eternamente uma espécie que se caracteriza por determinadas leis: precisamos de H2O, por exemplo. E, ao mesmo tempo, somos uma invenção de nós mesmos.

Viva eu, viva tu, viva o rabo do tatu!!!

Criadores e criaturas

O ponto de partida

Somos todos bipolares, donos de dois hemisférios cerebrais com características distintas

Seres humanos, assim como outros seres, têm suas especificidades. Algumas óbvias: a uma certa altura de nosso desenvolvimento biológico começamos a emitir sons e, mais tarde, os transformamos em linguagem complexa. Assim como começamos a engatinhar e, depois, a andar. Os peixes bagres migram rio acima para desovar. E assim tem de ser, para que suas larvas sejam levadas rio abaixo. Cada um na sua competência. Acontece que nós, seres humanos, nascemos com uma inteligência ampla, não específica, e que, por isso mesmo, parece ter, em sua essência, a plasticidade capaz de compreender e se interessar por tudo. Basta que haja a chance da experiência, do contato e a provocação do pensar que isso gera.

Há pensadores (como Joseph Pierce, autor de A Criança Mágica) que comparam nosso cérebro a um holograma do mundo. Teríamos o todo universal nas partes de nossos hemisférios cerebrais e córtex.
O que parece acontecer, e acredito nisso, é que o hemisfério direito funciona como uma grande memória dos Tempos. E, à medida que nos desenvolvemos, desde bebês a crianças e, finalmente, adultos, reconhecemos os conteúdos dessa casa da Memória e os colocamos a serviço de nossa inteligência lógica. O problema está quando uma cultura como a nossa, ocidental, prioriza a inteligência racional e sua lógica, sem levar em consideração esta outra fatia da maçã: o hemisfério direito, contenedor do Todo.

Joseph Pierce nos chama a atenção para uma pedagogia que, maieuticamente (vide Sócrates: “conhece-te a ti mesmo”), revele o que intrinsicamente a natureza nos habilitou a ser.
E vejo essa atrofia do hemisfério esquerdo como se a gente tivesse decidido que os nossos filhos, assim como fomos nós mesmos, devessem ser amarrados e paralisados de todo um lado de nosso corpo e só permitido a nós exercitar o outro braço, perna, ouvido etc. Hoje fala-se muito de bipolaridade para tratar de uma disfunção do domínio da psiquiatria. Mas, eu, como me permito pensar tudo, penso que a bipolaridade só vira doença após o longo processo de exercício da unipolaridade e o não reconhecimento de que somos, sim, por característica biológica, bipolares.

Quero dizer: priorizamos tanto um dos polos (no caso o hemisfério esquerdo) de nosso cérebro, que isso provoca no outro polo uma manifestação caótica e irreconhecível, a ponto de ser identificada como uma doença. O hemisfério direito tem como característica a imaginação: o universo mágico das infinitas possibilidades. Quando temos em nossas mãos a responsabilidade de criar filhos, precisamos estar atentos ao exercício do reconhecimento que nosso cérebro faz do Universo. Para que toda a potência de nossas crianças venha à tona e se transforme em atuações originais, ricas de conteúdo e sadias.
O ponto de partida não é a nossa visão viciada de adultos, já comprometida e limitada por anos de uma educação direcionada e cerceante. Mas o das crianças que chegam com toda a potência a ser exercitada desse holograma que reconhece o todo pela parte. Portanto, deixai vir a nós as crianças, porque delas é o reino do Universo.