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Claudia Visoni

mãe dos gêmeos Alex e Julieta, é jornalista e trabalhou em diversas revistas. Em 2003, fundou sua própria empresa, a Conectar, que atua nas áreas de comunicação institucional, consultoria editorial e marketing.

Sustentável leveza de ser

O mundo de Sabrina

A melhor forma de ensinar ecologia é mostrar a natureza pela brincadeira

Tem gente que adora comprar coisas novas. Eu prefiro fazer arqueologia nos meus armários para descobrir aquilo que tenho, já esqueci e ainda pode ser útil. E foi organizando antigos projetos de trabalho que descobri um relatório feito há alguns anos para um cliente que precisava comunicar conceitos ecológicos para crianças pequenas.

Na ocasião, pedi a consultoria de uma amiga de longa data, a Lucia Paiva, que é psicanalista. E ela me apresentou o fascinante universo de Jean Piaget (estudioso do desenvolvimento humano, cujas teorias influenciaram muito a psicologia e a pedagogia). Revendo esse material, lembrei-me da Sabrina, minha sobrinha de 2 anos. Outro dia, ela olhou a lua e perguntou: quem foi que mordeu a outra parte?

De acordo com o dr. Piaget, entre os 2 e os 6 ou 7 anos, a criança está na “fase pré-operatória”. Nessa etapa, a fantasia toma conta e vem daí aquela paixão pelos contos de fadas. Realidade e sonho se misturam. Tudo o que existe ganha sentimentos: objetos, lugares e fatos da natureza. São comuns atitudes como colocar os brinquedos para dormir ou achar que a cadeira se machucou porque caiu.

A NATUREZA SE REVELA DIANTE DOS OLHOS DAS CRIANÇAS EM FORMA DE ANIMAIS, PLANTAS E PAISA¬GENS. ECADA DESCOBERTA VEM ACOMPANHADA DE UMA SENSAÇÃO DE MARAVILHAMENTO. OS PEQUENINOS NÃO CONSEGUEM AINDA COMPREENDER A INTERDEPENDÊNCIA ENTRE VÁRIOS FENÔMENOS E MUITO MENOS LIDAR COM TENDÊNCIAS DE LONGO PRAZO. DIZER QUE A ÁGUA DO MUNDO VAI ACABAR OU QUE O AR ESTÁ ENVENENADO PODE EVOCAR PAVORES DE MORRER DE SEDE OU SUFOCADO INSTANTANEAMENTE.

Crianças não escolhem o próprio estilo de vida, ele é ditado pelos pais. Portanto, mesmo que compreendessem os dramas ecológicos, nessa fase seria inútil alertá-las. Conversas assim são para adultos.

Quando estiver num eco-momento com seu filho, mostre o ambiente que o rodeia. Deixe-o sentir a chuva, ouvir o vento, assistir ao pôr-do-sol. Aponte o cume das montanhas, a forma das nuvens, as ondas do mar. Deixe a imaginação dele voar e trazer explicações malucas. A sensibilidade para o fato de que nós e a natureza somos uma coisa só vai surgindo a partir de singelas experiências cósmicas. No futuro, esse ser humano será mais receptivo às informações relacionadas à sustentabilidade e mais disposto a participar de ações em favor do meio-ambiente. E é de pessoas assim que a Humanidade está precisando.

 

Sustentável leveza de ser

Reciclando problemas

Se continuarmos descartando coisas do modo que nos habituamos a fazer, um dia nossa civilização será soterrada por um tsunami de detritos

A coleta seletiva de lixo está em quase toda parte hoje em dia. Escolas, clubes, hotéis e locais públicos ostentam os vários recipientes coloridos para papel, plástico, metal, vidro e resíduo orgânico. Alguns supermercados recebem a sucata e, aos poucos, ampliam-se as rotas dos caminhões de lixo escalados para recolher os recicláveis. Os cidadãos ecologicamente conscientes se esforçam para separar e limpar embalagens & cia, enviando corretamente para a rede de coleta, que inclui também as cooperativas de catadores.  Lendo o parágrafo acima parece que está tudo resolvido em relação ao lixo, não é? Mas tenho colecionado reportagens sobre o assunto e descobri que, infelizmente, a realidade da reciclagem é bem mais suja do que parece, pelo menos na capital paulista, onde moro. Se quiser mergulhar no assunto, pesquise as edições de O Estado de S. Paulo em 13/2/2009, Veja São Paulo em 5/8/2010, Folha de S. Paulo em 27/1/2010 e Revista da Folha em 28/2/2010.

Para começar, estamos transformando em lixo aquilo que deveria repor a fertilidade da Terra. Explico: 60% do lixo doméstico gerado em São Paulo são orgânicos (incluindo podas do jardim) e poderiam se transformar em adubo, caso fossem para a compostagem. Só que não existem composteiras públicas e não há incentivo algum para as pessoas fazerem a compostagem em suas casas ou condomínios. Muita gente, aliás, nem sabe o que é isso. Então, esse material organicamente valioso vai para o aterro, onde se mistura a todo tipo de detrito, incluindo resíduos tóxicos.

Já a eficiência da coleta seletiva oficial deixa muito a desejar. Aqui, na maior cidade do país, o sistema recolhe 140 toneladas diárias de sucata. Só que pelo menos 35% disso são desperdiçados e acabam indo para o aterro. O pessoal que trabalha nos centros de triagem das cooperativas tem de desprezar as sucatas em mau estado e as que não encontram comprador, como muitas vezes ocorre, por exemplo, com as embalagens plásticas do tipo que é utilizado em cosméticos, o isopor e os papéis metalizados. Pior ainda é quando o caminhão “seletivo” está muito cheio e compactado, o que complica a separação de materiais. Aí, a equipe da limpeza pública simplesmente muda o caminho e despeja no lixão todo o conteúdo da caçamba.

Mesmo os itens mais fáceis de vender (como papel, latas de alumínio e garrafas PET) tiveram o preço reduzido nos últimos anos devido à crise econômica mundial. Muitos catadores abandonaram a atividade por não conseguirem mais se sustentar e existem até prédios que estão desistindo de promover a reciclagem. No final, apenas 1,1% de todo o lixo de São Paulo acaba sendo reciclado. O resto morre no aterro. E isso é outro problemão, pois no mundo inteiro há cada vez menos espaço para colocar os detritos. Se continuarmos assim, um dia nossa civilização será soterrada pelo tsunami do lixo. Mas nós podemos evitar o apocalipse da sujeira e já existem muitas soluções bacanas para deixarmos um mundo mais limpo para os nossos filhos.
P.S.: Se na sua cidade a reciclagem está funcionando de verdade ou se você conhece iniciativas legais para diminuir o lixo que geramos, por favor me conte: claudia@conectar.com.br